Essa noite tinha um passarinho cantando na minha janela. Achei que eles não cantavam a noite, mas esse cantou.
Eu queria dormir, mas tinha um passarinho cantando na minha janela. Lá fora, tem uma árvore, e o passarinho não queria ir embora.
Como não conseguia dormir, fiquei de olhos abertos, no escuro mesmo, ouvindo o passarinho cantar. Era bonito, o som. Mas eu queria dormir e não conseguia.
Enquanto o passarinho cantava e eu me conformava em não dormir, comecei a pensar nos passarinhos que não cantavam e que voaram pra longe. Um ali, para o Nordeste, o outro, Sul, mudos. E eu, que ainda não sei voar nem cantar, fiquei aqui.
O passarinho na janela deve ter sido ouvido por alguma pretendente, pois enquanto em pensava se preferia frio ou calor, ele ficou quietinho. Ou voou também, talvez para alguma outra janela, com outra árvore. E eu, fiquei aqui. Porque passarinho de gaiola primeiro aprende a cantar.
Quando eu o conheci, lembro-me bem, ele era apenas um cara comum, numa mesa de bar, que havia tomado algumas garrafas de cerveja e pretendia tomar mais uma ou outra ainda. Foi engraçado como um cara comum me chamou a atenção apenas com um giro de copo, eu ri, ele se encantou. Ainda acho graça, sorrio e ele ainda se encanta. Mais engraçado ainda perceber como ele pôde se encantar com algo tão natural quanto uma risada, ou mais ainda, como eu pude rir de alguém girando um copo numa mesa de bar. É que quando eu ri e os olhos dele brilharam, foi que vi que ele não era apenas um cara comum. Não direi que é um príncipe encantado, nem listarei seus defeitos e qualidades. Direi apenas que me enganei e que o que parecia comum, hoje me é fundamental. A graça é nunca perder a graça de ver um copo girar e um olhar brilhar.